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Je suis un Homme...

Comme ils disent! Onde tudo tem o seu espaço.

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Seg | 04.11.19

Carta aberta a Manuel Bourbon Ribeiro

Em resposta à sua ‘Carta aberta ao meu país’, publicado pelo Observador.

Ismael Sousa

Caro Manuel Bourbon Ribeiro

(Carta aberta ao meu país)

 

Se a tua carta fosse escrita há 500 anos atrás, provavelmente metade das pessoas que a leram não a teriam lido, porque não o saberiam fazer. Provavelmente serias mais um burguês com grandeza enquanto que todos os outros vestiriam trapos e andariam sujos durante dias para que tu pudesses ser quem eras. Talvez estejas equivocado pela forma como olhas para o teu país, para a grandeza que tu escreves. Sim, já não somos pioneiros nos descobrimentos porque já não há nada para conhecer. Também já não somos os pioneiros no comércio nem influentes na política internacional porque demos mais valor a estrangeiros que a nacionalistas. Portugal mudou por tantas e diversas razões. Era Fernando Pessoa mais amante deste país, era Camões mais amante deste país que qualquer um de nós nos dias que correm.

 

Não tenho qualquer autoridade para te dizer seja o que for ou emitir juízos de valor em relação a ti. Não te conheço. Mas li a tua carta e se Portugal somos cada um de nós, então também me sinto responsável por te responder.

 

Eu tenho 29 anos e não sei quanta vida pela frente. Sinto que posso fazer algo pelo meu país e, na minha pequenez, vou tentando fazer algo pelo meu país, mesmo que isso não saia do meu grupo de amigos. O meu país deseja que eu faça algo por ele, mesmo que todos à minha volta não o queiram fazer. Nós também somos sonhadores, continuamos a desejar fazer tudo e a alcançar o céu e alguns de nós até conseguem. Mas eu também acho que o meu país tem de me ajudar. Também acho que o meu país me deve educar num pensamento de liberdade e de sonho. Uma educação que seja real e verdadeira, que nos prepara para o mundo de forma a podermos ser diferentes. Uma educação que não me faça igual a tantos outros, mas que me deixe ser quem eu verdadeiramente sou, que me faça pensar e não acenar.

 

Se não sabes como podes realmente fazer algo grande, começa por fazer algo pequeno. As grandezas não são para quem sonha alto, mas para quem ambiciona de mais. Eu preciso de conhecer os grandes feitos e os grandes “desfeitos” do meu país em vez de conhecer só o que de bom (ou não) foi feito por ele. Preciso que o meu país me ensine a respeitar aquele que esteja a meu lado, quer seja rapaz ou rapariga. Que aceite vestir cor-de-rosa em vez de azul; que me ensine que não importa o sexo mas que somos todos iguais e livres de podermos usar, vestir como queremos. E dizeres que queres escolher uma escola onde estudar, parece-me uma comparação um pouco infantil. Bem como onde queres ser tratado. Tu és livre de o fazer onde quiseres. E se a ambição do homem não fosse tão grande, talvez tu pudesses ser tão bem tratado num hospital publico como no privado. Sabias que há médicos e enfermeiros a trabalhar no público e no privado? Que há maior interesse ser tratado no privado porque se ganha mais do que no público? Talvez nunca tenhas passado longas temporadas num hospital. Pois eu já la passei muito tempo, num hospital público onde fui muito bem tratado.

 

Sim, Portugal está diferente. Mas gostaria de saber a que governantes te referes e talvez esse nem seja um motivo de discussão. Antigamente os reis e governantes não iam para o panteão, e quem governa e suborna não vai parar à prisão.

 

Metade de nós não vai votar por um pensamento igual a esse: “não posso fazer nada”. Votamos nas maiorias, votamos em gente que tem mais interesse em encher os bolsos, garantir uma boa reforma do que governar um país. Com 17 anos achas-te no direito de escolher a que hospital queres ir e em que escola queres estudar, mas consideras que não tens idade para afirmares ser aquilo que sentes ser. Talvez tenhas a sorte de te achares “normal” e considerares todos os outros anormais. Algum dia te colocaste na pele dessas pessoas? Algum dia sentiste estar a ser aquilo que não és. Com 17 anos não devias julgar os da tua geração que lutam diariamente para serem quem realmente sentem ser. Com 17 anos não devias estar a julgar quem quer que seja e a meteres-te em assuntos que lhes dizem respeito. A ti ninguém te obriga a mudar de sexo, e ainda que sejas contra, com 17 anos, deverias entender isso muito melhor que cada um de nós. Com 17 anos estás já com um pensamento de velho do restelo em vez do pensamento de um jovem do século XXI.

 

Não é o teu país que decide se deves morrer ou não. O teu país dá-te essa liberdade. São coisas diferentes. A vida é tua e não de mais ninguém. E atenção, eu sou contra a eutanásia e continuo a defender que ninguém tem o direito de decidir sobre a vida de ninguém. Mas eu tenho direito a decidir sobre a minha vida, direito a escolher quem sou, a gostar de quem gosto, a ir ao hospital que quero, a ir para a escola que quero. A vida é minha e eu tenho o poder de decisão sobre ela. E se o meu país não me deixa escolher isso, então eu não quero viver neste país.

 

Devias investigar algumas coisas bem antes de apontares o dedo ao teu país. Quem te lê dirá que com 17 anos tens muita maturidade, mas eu acho que continuas imaturo. Deverias saber que existe muita gente a falsificar documentos para conseguir adquirir uma bolsa de estudo, preterindo-se assim quem realmente necessita. Deverias saber que existem creches onde o que se paga é consoante o rendimento familiar. Deverias questionar o porquê de não haver subsídios e alargamento de licenças de maternidade. Os meus pais tiveram 3 filhos sem terem grandes condições, e cada um deles tem mais valor que muitos cheios de condições. E nesse campo, posso dizer que aqueles que mais condições têm, menos filhos dão ao mundo. Fico feliz, sem ironia, por teres 5 irmãos: haveria de haver mais pais como os teus, ou como os meus, por exemplo.

 

Não estudo, não tenho um curso superior mas também sei citar autores como São Tomás de Aquino ou Sofócles, Aristóteles, entre tantos, onde a política nasceu: “o principal intuito do estado é o bem viver das pessoas” mas essas mesmas pessoas são chamadas a ajudar a governar e nós não o fazemos, gozamos com mulheres gagas e homens de saias.

 

Poderia continuar a responder-te a toda a tua carta, mas penso que já chega. Todas as tuas intervenções andam em volta de um pensamento político manipulado. Aquilo de que te queixas, queixamos-nos muitos, há demasiado tempo. Pela linha do teu pensamento, a estudar direito, sinto que daqui a uns anos estarei a ver o teu nome entre os deputados. Serás mais um que vai para lá discutir o sexo dos anjos como todos os outros. Serás mais um retrograda e machista com interesse em encheres o teu bolso em vez de encheres os bolsos aos portugueses. Serás assim porque se do alto dos teus 17 anos já escreves desta maneira e tens um pensamento assim, estás já a ser manipulado por outros tantos como tu. Pensa por ti. Pensa em conformidade com a tua visão do mundo. Não lutes por salários maiores para uns, fala em salários maiores para todos. Um dia quando tiveres que trabalhar, pagar uma renda e todas as responsabilidades que ter uma casa pressupõem, e o teu ordenado for inferior a 700€, então aí perceberás que nem tudo são rosas. Como tu daqui a 5 cinco anos, também nós tivemos de nos fazer à vida, lutar por ter aquilo que temos hoje em dia. Pensa que não é só a tua geração que precisa de oportunidade, somos todos nós.

 

Não leves isto como um ataque pessoal, mas sim como uma consequência. Quem escreve publicamente tem de se conformar com ler respostas diferentes ao que escreve. Não és tu, mas tantos como tu. Pensa bem, aprende durante os próximos 5 anos de forma raza. Não te deixes moldar por opiniões alheias, forma a tua opinião. Não vás atrás de cores, sê neutro, abre os olhos e vê o mundo. Há tanta coisa mal à nossa volta. Não é o teu país que não presta, são alguns portugueses que não prestam. Não tomes o todo pela unidade, nem todos somos iguais. Neste momento o teu futuro está mais assegurado que o meu. O meu país continua grande e eu orgulhoso dele. Somos os melhores em tantas coisas e eu nenhuma te vi referir. Sabes que esse pensamento é o do chefe e não o do líder. Vais falhar e um dia vais perceber que o teu pensamento retrograda te prejudicou.

 

Um abraço com respeito

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